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Domingo, Fevereiro 05, 2006
Festival Internacional de Filmes de Rotterdam
Parte 2
Sei que não pariticipei efetivamente do festival, mas vou arriscar algumas coisinhas. Antes de irmos, Rinaldo me contou como era o esquema. De acordo com ele, a maioria dos filmes é do tipo intelectualóide, desses em tudo que querem forçar significado, metáfora e, no fim das contas, simplesmente não fazem sentido e que a maior parte do público segue exatamente esse esquema. Devo confessar que, a julgar pelos filmes "Black Sun" e "Caravaggio, L'ultimo tempo" (vide post abaixo) e por uns artigos que li no jornal do festival, essa é a idéia mesmo.
Afinal de contas, o que pensar quando um jornal publica um artigo sobre um filme onde os soldados americanos mortos no Iraque voltam para aterrorizar Bush e diz que é um dos filmes mais politicamente concisos? Pois é.
O nome do tal filme é "Homecoming" ("Voltando para casa"). Aí vai a tradução de uma parte da crítica: "(...) durante as eleições dos Estados Unidos, os veteranos da atual guerra do Iraque saem da tumba para derrubar Bush. O motivo? Esses zumbis de uniforme sentem que foram enganados ao lutar numa guerra por falsas intenções". O artigo termina dizendo que "este filme é um alerta para todos". O que dizer sobre isso? Quer coisa mais trash? Comentem vocês.
O segundo artigo é sobre uma diretora holandesa que fez um filme em São Paulo. Foi o seguinte: essa mulher, Manon de Boer, foi a São Paulo uma vez para uma exibição de seus próprios trabalhos. De acordo com de Boer, ela ficou encantada com a atmosfera carnavalesca da cidade e ficou impresisonada com a mistura de povos e a relação das pessoas com seus corpos. A princípio, ela quis retratar essa maravilhosa atmosfera paulista, até conhecer a psicanalista Surely Rolnik (estou assumindo que é uma mulher, não sei se isso é nome de homem ou mulher). Então, mudou os planos para falar sobre Ronilk, suas experiências na ditadura de 60 e suas influências de intelectuais franceses e ainda mostrar um pouco da atmosfera carvalesca de São Paulo. Minha opinião? Ditadura de 60, ótimo. Intelectuais franceses, ótimo. Atmosfera carnavalesca de São Paulo? Isso eu não sabia que existia. Mas enfim, esse parece ser um filme clássico da categoria intelectualóide. Pegar temas interessantes, misturar e não dar em nada. Afinal, como relacionar os intelectuais franceses e a atmosfera carnavalesca? E não me digam "ah, não seja preconceituosa, você nem assistiu o filme...". Realmente, não assisti e nem quero. Essa peça rara do cinema foi exibido no festival também.
Mesmo assim, acho injusto dizer que o festival é ruim. Ele cobriu filmes do mundo inteiro mesmo, com vários horários, debates, conferências, diretores de cinema... Pena que é tão carinho, né? =(
No mais, agora é esperar pelo 22o Fantástico Festival de Filmes de Amsterdam, entre 19 e 26 de Abril. Estamos aí!
O filme brasileiro "Quanto vale ou é por quilo?" ficou em 30o lugar na categoria "opinião pública"
Posted by Larissa at 3:31 PM
Cronique aqui:
Sábado, Fevereiro 04, 2006
Festival Internacional de Filmes de Rotterdam
Parte 1
Entre os dias 25 de janeiro e 4 de fevereiro, ou seja, hoje, foi realizado o 35o Festival Internacional de Filmes de Rotterdam. Não posso falar muito do festival em si. Isso porque não fui a nenhuma conferência e só assisti 3 filmes, já que o ingresso custava 8 euros. Dois filmes eu só paguei uma entrada, já que os dois ("Black Sun" e "Caravaggio, L'ultimo tempo") foram exibidos na mesma sessão. O terceiro filme foi o brasileiro "Quanto vale ou é por quilo?". Sem comentários do tipo "a pessoa é brasileira e vai pra um festival internacional de cinema assistir filme brasileiro", por favor. Não se esqueçam que eu namoro um gringo.
O fato é que foi difícil encontrar ingressos disponíveis. Eu bem queria assistir a um documentário iraniano e um outro filme árabe, porque eu sei que esses jamais vão chegar a João Pessoa, minha vila natal. Mas tava tudo lotado. Enfim.
Agora, vou falar dos filmes que assisti. Amanhã falarei de maneira geral sobre o festival propriamente dito.
Black Sun (Sol negro)
Esse é um filme britânico, sobre um pintor francês que mora (ou morou) nos Estados Unidos. Se passa nos EUA, França, Índia, entre outros países.
O filme é todo narrado pelo próprio pintor, Hugues de Montalembert. Aliás, o filme é só narrado, monólogo. O fulano perdeu a visão quando estava nos EUA e passa 1 hora inteira falando de como superou a dificuldade de ser cego. O moralismo rola solto, frases do tipo "eu nunca pensei em suicídio", "não podemos ficar com raiva, temos de transformar isso em algo bom" compõem o recheio do filme. E sempre que eu achava que o filme ia acabar, não, lá ia o homem agora refletir sobre a dificuldade de ser idoso e cego. Acharam pouco? Várias coisas que ele falava, ele repetia depois. Ou seja, você podia se dar ao luxo de sair no meio do filme, comprar pipoca, ir ao banheiro, checar e-mail, que aquilo que você perdeu seria falado novamente.
Caravaggio, L'ultimo tempo
Esse filme foi uma farsa. Resolvi assistir porque li o seguinte na sinopse do site do festival: "Martone combina poeticamente a beleza de Nápoles com os últimos anos de Caravaggio antes de ser sentenciado por assassinato". O que você espera disso? No mínimo ver a beleza napolitana e saber o que tanto aconteceu durante os últimos anos de vida do pintor. Pois. A pessoa que escreveu isso não viu o filme, leu apenas o textinho inicial que dizia que Caravaggio fugiu para Nápoles em 1606. Só.
É tanta coisa ruim que nem sei por onde começar.
O filme também é um monólogo, e quem monologa é o próprio Caravaggio. Isso só dá pra saber uma vez durante o filme inteiro (1 hora), só há uma dica que ele é ele. A narração é incrivelmente cansativa. Ao contrário do filme acima, o cara que narrava não tinha entonação de voz, não fazia pausas na fala, não expressava emoção nas palavras. Matou a língua italiana.
Enfim, o cara ia narrando sobre Nápoles em tempo presente (séc. XVII) , falando mal, mas as imagens eram da Nápoles de hoje. A propósito, não mostraram nada de bonito da cidade, mostraram exatamente a parte não-turística, mercados, favelas. No fim das contas o que o diretor Martone queria mostrar é que os valores e a vida dos napolitanos continuam os mesmos. Não que isso seja ruim, mas o cara lá da sinopse falou que ia ser mostrada a beleza napolitana.
O filme não tem atores. Quero dizer, tem um Caravaggio muito malamanhado, sofrendo, e que não convencia de jeito nenhum. E, aqui e acolá, alguém encenando algo que Caravaggio ia falando.
Agora, vem uma das piores partes. Praticamente metade do filme era exibição das telas de Caravaggio. Só as telas. Tudo bem, mostrar uma ou duas, ou três, mas foram mostradas centenas de telas, em imagem congelada. O diretor usou a obra de outro artista em benefício próprio, pra ver se deixava seu filme mais interessante. Inaceitável.
Então eu lembrei de uma livraria que eu descobri. Essa livraria vende livros de arte baratinho. Lá tem uma coleção de livros chamada "O mais belo de (nome do artista)" e tem "O mais belo de Caravaggio". O livro custa 4 euros. Ou seja, ao invés de gastar 8 euros com esse filme, eu gastaria 4 euros pelo livro e ainda sobrava 4 euros pra cerveja.
Quanto vale ou é por quilo?
O último filme do dia. Os brasileiros salvaram o dia.
Sim, o filme é ótimo. Sérgio Bianchi compara a hipocrisia e a corrupção das instituições de caridade atuais com o período escravocrata brasileiro. O filme alterna cenas dos dois tempos, sempre sobre o mesmo tema. Por exemplo, se há uma cena sobre alguém que mata outro alguém por dinheiro, há uma cena equivalente do século XVIII, onde os capitães do mato o faziam por dinheiro também. No fim das contas, nada mudou daquela época pra cá.
Mesmo sendo um filme sério, pesado até, há cenas de humor, a maioria sarcástica, claro.
No fim do dia, fiquei feliz: escutei português, escutei Cartola e vi pratos de coxinha e risole. Ok, a verdade é que morri de saudades de comer salgadinhos. Coisas que só o auto-exílio faz por você.
E os europeus também adoraram o filme também. Afinal, tinha favela, violência e até um pouquinho de samba. Era ou não era o que eles queriam ver num filme brasileiro?
Posted by Larissa at 4:34 PM
Cronique aqui:
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